‘Vi o último suspiro’, diz pai de Kamylla, morta a tiros em Campo Grande - SUDOESTE MS
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‘Vi o último suspiro’, diz pai de Kamylla, morta a tiros em Campo Grande

Prestes a começar o júri popular de Matheus Henrique de Oliveira Domingos na manhã desta sexta-feira (2), em , a família pede justiça pela morte de Kamylla Scarllet Fernandes Cristaldo.

A jovem foi ferida a tiros no dia 1º de setembro de 2024, enquanto esperava um motociclista de aplicativo, e morreu três meses depois, em dezembro. Matheus ficou um ano foragido e foi localizado somente em outubro de 2025, no das Cerejeiras, em Campo Grande.

Nesta sexta (2), Matheus ocupa o banco dos réus na 2ª Vara do Tribunal do Júri, dois anos depois do crime que vitimou Kamylla. Ao Jornal Midiamax, o pai da vítima, Flávio Cristaldo de Jesus, lembrou a criação dela e se emocionou ao recordar os últimos momentos da filha.

“Criei-a desde pequenininha. Vi ela nascer, eu estava lá. Eu criei, embalei cólicas, noites sem dormir. Dei de mamar, comprei fralda. Eu era office boy na época. Pedalava essa cidade para comprar as coisas para minha filha, e ele a tirou de mim”, desabafou.

Flávio ficou com a imagem do último suspiro de Kamylla. “Os últimos três meses de vida da minha filha foram comigo. Eu fiquei com a imagem do último suspiro dela. Segurando minha mão e falando: ‘Pai, não me deixa. Não deixe! Eu não quero ir!’”, contou o pai à reportagem.

O pai de criação foi quem acompanhou Kamylla durante os três meses de internação. Desde a partida precoce da jovem, Flávio lida com o vazio no peito diariamente.

‘Vazio nada preenche’

“Sem trocar, sem sair daquela Santa Casa, sem fazer nada no mundo aqui fora. Todos os dias tem médico. Os enfermeiros que eu conheci durante a minha vida diziam: ‘Pai, vai lá fora um pouco respirar’. Eu não conseguia. Lembranças estão na memória. Mas o vazio que a gente sente dentro de casa, no cotidiano, no dia a dia, nada preenche”, afirmou Flávio.

Por fim, o pai pediu um basta nos feminicídios. “A tamanha crueldade que esse cara fez com a minha filha, sem dar direito de defesa, e motivado torpemente a fazer isso… Eu só quero que a justiça seja feita também. Chega de matar mulheres! Chega de feminicídio! Só existe homem por meio de mulher! Não tem como ter homem sem mulher! Elas nos dão a vida. Chega, gente! Chega, eu peço, pelo amor de Deus!”, implorou Flávio.

‘Mãezinha, cheguei!’, lembra avó, que também é mãe de Kamylla

A avó Elizeth Fernandes Cristaldo, que também considera Kamylla sua filha, lembrou que o sonho da jovem era ser mãe. Kamylla deixou um filho de apenas dois anos, que sente o perfume, conhece a roupa e vive declarando o amor pela mãe.

“Eu clamo por justiça, por ter me deixado tão só com um anjo, que é o filhinho dela, que o sonho dela era ser mãe. Quando ela conseguiu realizar o sonho dela, ela ficou apenas dois anos com ele, e ele [autor] tirou a vida da minha neta. O anjo dela [filho] pede por ela, sente o cheiro do perfume dela. Ele conhece a roupa que ela usava, que eu guardo. Sabe, hoje mesmo ele está comigo; eu trouxe até o carro. Ele vem falando: “Vovó, eu amo minha mamãezinha”, relatou Elizeth.

A avó de Kamylla também comentou sobre o vazio que a morte da jovem deixou na família. Inclusive, lembrou como a jovem a chamava no portão de casa.

“Ela me cuidava. Hoje, eu não tenho mais quem chegue no portão e me chame: ‘Mãezinha, cheguei!’ Não tenho mais. Eu clamo por justiça. Tenho um vazio imenso. A minha casa ficou triste, porque era ela quem alegrava, com sonhos e planos para o amanhã”, lembrou Elizeth.

Elizeth Fernandes Cristaldo, avó e mãe de Kamylla. (Foto: Léo de França, Jornal Midiamax)

Prisão de acusado

Matheus era procurado pela DHPP (Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa) desde dezembro de 2024, quando foi identificado como autor do crime. Com a descoberta da autoria, um mandado de prisão preventiva foi expedido contra ele.

Assim, os militares da 11ª CIPM (Companhia Independente de Polícia Militar) passaram a monitorar possíveis endereços e, no dia 13 de outubro de 2025, encontraram o rapaz em uma casa abandonada na Rua Osmira Machado de Almeida, no Jardim das Cerejeiras.

Relembre o crime

Kamylla estava com mudança marcada para o dia 2 de setembro de 2024. Informações obtidas pelo Jornal Midiamax indicam que a mulher estava na frente de uma residência, na Rua Nhamunda, aguardando a chegada de uma motociclista de aplicativo, quando o autor surgiu e efetuou os disparos.

Moradores das imediações acharam que se tratava de bombas, mas perceberam que o barulho foi muito forte. Em seguida, vizinhos encontraram a mulher do outro lado da rua, provavelmente após tentar correr do atirador.

Alguns populares chegaram a ver um homem de short correndo. Já outra testemunha teria visto dois suspeitos — um deles estava sem camisa e o outro usava short vermelho e camiseta laranja.

O pai de um menino de 9 anos falou para o Jornal Midiamax que o filho viu um homem fugindo em direção à rodovia depois de atirar duas vezes contra Kamylla, naquele 1º de setembro. Segundo o pai, o garoto viu o sangue jorrando do pescoço da vítima e ficou traumatizado com a cena.

Kamylla revelou motivação antes de falecer no hospital

Família e conhecidos de Kamylla suspeitaram da participação de um casal, que teria se desentendido com a vítima meses antes do crime, por conta da venda de alguns móveis da casa onde moravam. Porém, a investigação descartou a ligação do casal ao crime, assim como a suspeita de assalto.

Ainda no hospital, Kamylla recobrou a consciência e contou quem era o autor e qual foi a motivação. Segundo ela, Matheus Henrique de Oliveira Domingos, de 22 anos, namorado de uma mulher com quem Kamylla dividia uma casa, teria feito os disparos. O motivo seria ciúmes da amizade entre as duas

Kamylla ficou tetraplégica devido ao crime. Ela não resistiu aos ferimentos e morreu no dia 19 de dezembro de 2024.

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