Enquanto processa os Executivos do Estado e do Município por mais recursos, a Santa Casa de Campo Grande responde a ações judiciais de pacientes que buscam atendimento ou até explicações sobre casos registrados na instituição hospitalar. No primeiro trimestre de 2026, a instituição é implicada em mais de 77% dos processos em que é citada em Mato Grosso do Sul.
Judicialização vem como pedido de socorro
Quase diariamente, o Jornal Midiamax recebe denúncias e pedidos de ajuda de familiares de pacientes que aguardam procedimentos ou buscam respostas para supostas negligências da Santa Casa. Alguns dos casos chegam até a Justiça, na tentativa de dar celeridade às cirurgias, aos exames e ao acompanhamento do tratamento de pacientes.
A maior parte dos processos aos quais o hospital responde está no âmbito da saúde, com ações movidas por serviços de saúde (6), tratamento médico-hospitalar (4), cirurgia (5), consulta (4), eletiva (2), urgência (1) e perigo para a vida ou saúde (1).
Esse grupo de ações judiciais representa mais da metade dos processos em que a Santa Casa é ré. São 23 itens com assunto principal diretamente relacionado com a saúde, sendo 62% dos processos.
Hospital filantrópico, a Santa Casa possui setor privado. Por isso, a segunda categoria com mais processos é sobre direitos do consumidor e responsabilidade civil. São oito processos que representam 21% das ações judiciais, entre eles: práticas abusivas (2), repetição do indébito (1), dever de informação (1), perdas e danos (2), acidente de trânsito (1) e direito de imagem (1).
Além disso, existem outros casos judicializados nos primeiros meses de 2026:
- Auxílio-moradia – 1
- Ensino superior – 2
- Multas e demais sanções – 1
- Obrigação de fazer/não fazer – 2
- Repetição do indébito – 1

As respostas que não chegaram…
O Midiamax detalhou as histórias de Caleb e Sophie, que morreram após atendimento na Santa Casa. As famílias questionam o socorro prestado às crianças, que saíram da instituição sem vida.
As famílias seguiram caminhos parecidos: reuniram documentos, procuraram autoridades e transformaram o luto em luta por justiça.
A mãe de Cabeb voltou à Santa Casa logo depois do sepultamento do filho para buscar laudos e prontuários e, com os papéis em mãos, entrou com ação judicial. Ela também passou a usar a própria história para ajudar outras famílias de crianças cardiopatas, por meio do Instituto Um Só Coração, voltado a orientar outras mães com dificuldades parecidas na busca por atendimento.
No caso de Sophie, a mobilização começou já na madrugada da morte, quando a tia se recusou a aceitar a causa do óbito inicialmente apresentada e pediu que o corpo fosse submetido à necropsia.
No dia seguinte, a família registrou boletim de ocorrência. Depois do enterro, uma publicação sobre o caso ganhou repercussão e parentes foram juntos à Câmara Municipal cobrar respostas e responsabilização.
A família de Sophie prestou depoimentos à Polícia Civil e ao Ministério Público, acompanhada por advogados. O caso também passa por análise no CRM (Conselho Regional de Medicina), mas, mais de um ano depois da morte da menina, os parentes ainda aguardam respostas.
Questionada pelo Jornal Midiamax sobre os impactos financeiros e reputacionais que a instituição poderia enfrentar com esses processos, a presidente da Santa Casa, Alir Terra, limitou-se a dizer que os casos fogem do âmbito público.
“Quando você fala em judicializado, já foge do nosso atendimento do SUS. Porque, quando judicializa, aí já foge totalmente do atendimento do SUS da Santa Casa. A Santa Casa atende regulada. O judicializado segue um outro caminho, porque é via judicial”, afirmou.
Recursos
Pela mesma via, a judicialização, a Santa Casa de Campo Grande tenta angariar mais recursos públicos. De 48 processos abertos que citam a Santa Casa em alguma das partes, 11 são processos abertos pela Santa Casa durante os três primeiros meses de 2026. Os casos são de tutela de urgência (1), internação/transferência (6), pagamento (3) e causas supervenientes (1).
O cenário de crise na Santa Casa é sustentado nas ações que move contra o Município e o Estado, informando que há necessidade de atualização nos valores repassados. Superlotação é outro pilar de argumento do hospital, que atende pacientes de todo MS.
Seis dos processos que a Santa Casa abriu no primeiro trimestre pedem ressarcimento pelo atendimento de pacientes. O caminho é o mesmo: um paciente precisa de atendimento urgente, o hospital não consegue abrir vaga, a vaga é determinada pela Justiça, com possibilidade de atendimento na ala privada, a instituição faz o tratamento de forma paga e depois cobra dos Executivos os valores.
“Por se tratar de entidade filantrópica e atender prioritariamente pacientes do SUS, dispõe de recursos limitados, de modo que a ausência de ressarcimento pelos serviços prestados em cumprimento de ordem judicial compromete seriamente sua sustentabilidade financeira e, consequentemente, a continuidade de sua função assistencial à coletividade”, destaca o time jurídico da Santa Casa nas ações.
Nesses processos, a Santa Casa pede mais de R$ 157 mil pelo atendimento de seis pacientes. As ações têm valores que vão de R$ 1.093,00 a R$ 105.055,60.
‘Não tem com quem comparar’
São tantas ações movidas pela Santa Casa, que a Justiça de Mato Grosso do Sul mobilizou audiência para resolução conjunta dos processos. O último encontro terminou com acordo para nova perícia no hospital, na tentativa de desatar o nó jurídico da instituição de saúde.
Ao Midiamax e na audiência, a presidente da Santa Casa, Alir Terra, manteve o discurso de desequilíbrio financeiro em entrevista realizada antes da sua prisão, na última semana. “A situação é extremamente delicada”, disse na reunião.
Além disso, pontuou que, por ser referência, não existe hospital em MS que possa ser comparado à Santa Casa. “Então, a defasagem da tabela SUS é o ponto central. A defasagem da tabela SUS é o ponto central em todo o país. E aqui, em Mato Grosso do Sul, o problema é que nós não temos a quem comparar”, afirmou.
Em seguida, reforçou os processos abertos. “Nós judicializamos e estamos pedindo uma tabela a mais, que é o valor que daria o equilíbrio econômico-financeiro do contrato, o equilíbrio. Nós não precisamos ter lucro, porque o hospital é filantrópico e nós não dividimos lucro”, pontuou.
Allir explicou que a instituição também aplica medicamentos particulares, que podem ser reavidos, mas acabam não chegando por defasagem pública. “Quando esse paciente se encontra nesta situação e o SUS não cobre, se ele tem risco de morte, a instituição, por ser filantrópica, e quando não há tempo de buscar o recurso, acaba cobrindo esse custo e não recebendo porque não está no cardápio do SUS”, pontuou.
Décadas de crise financeira
Fundada em 1917 e com inauguração da obra em 1928, a Santa Casa tem crise financeira que se arrasta por décadas. Nos últimos vinte anos, a Santa Casa de Campo Grande já enfrentou diversas alternativas em busca de solucionar as dívidas da instituição.
A primeira delas foi a intervenção de 2005, que chegou ao fim com a devolução do hospital à ABCG (Associação Beneficente de Campo Grande). Na época, a intervenção deixou um legado de dívidas ainda mais alto. Os débitos da Santa Casa saltaram de R$ 37 milhões para cerca de R$ 167 milhões.
Além disso, o Midiamax já mostrou que a primeira intervenção deixou déficit mensal que oscilava entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões. A segunda intervenção contou com uma junta mista do governo e da Prefeitura de Campo Grande, com gestão de Nelsinho Trad (PSD).
O então diretor do hospital, Wilson Teslenco, reassumiu a gestão. Logo em seguida, destacou que o modelo de gerenciamento do hospital precisava ser alterado. “O futuro do hospital depende de um acordo, porque a dívida só cresce”, alertou Teslenco na época.
Dívida milionária
Quando a Santa Casa foi devolvida, Teslenco e o conselho fizeram uma gestão até o fim de 2015. Nesse período, o hospital teve a dívida reduzida de R$ 167 milhões para R$ 42 milhões, com pagamentos mantidos em dia, reforma de dois andares do hospital, do Prontomed e retomada das obras da unidade do trauma.
Após as intervenções, houve CPI da Saúde na Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul), que se aprofundou na gestão da Santa Casa. A comissão foi presidida pelo falecido Amarildo Cruz (PT). O parlamentar disse que a intervenção foi prejudicial ao hospital.
A dívida que baixou para R$ 42 milhões subiu para centenas de milhões novamente nos dias atuais. Assim, a Santa Casa move ação judicial em que cobra aumento de repasse na ordem de R$ 158 milhões anuais.
O caso está em litígio e as partes ainda não chegaram a um acordo. Enquanto isso, o convênio anterior, de R$ 32,7 milhões por mês — R$ 392,4 milhões anuais —, continua vigente por força de decisão judicial.
Ala vermelha: no limite da emergência
O Jornal Midiamax publica nesta semana uma série de reportagens especiais sobre a Santa Casa, aprofundando-se nas problemáticas que compõem o hospital de referência em Mato Grosso do Sul.
Com casos de alta e média complexidade, a instituição cura e salva vidas. Porém, no meio do caminho, a rotina do hospital também pode adoecer quem presta o atendimento. Camadas de dor — dos profissionais, dos pacientes e das famílias dos que já partiram dentro do hospital — se entrelaçam, formando parte da característica de ser uma instituição de alta complexidade.
*Nomes fictícios usados para sigilo das fontes, previsto pelo artigo 5°, inciso XIV, da Constituição Federal de 1988.