
André Caramante, que ocupava o posto de diretor de Jornalismo Investigativo da Record, foi demitido após quase dez anos de denúncias por assédio
Após receber um alto volume de denúncias por assédio moral, acumuladas ao longo de quase dez anos, a Record efetivou na última quinta-feira (12) a demissão de André Caramante, diretor responsável pelo núcleo de Jornalismo Investigativo. Os atos relatados pelas vítimas extrapolaram o limite do aceitável e seu desligamento ganhou força após repórteres de grande calibre, que também atuam como apresentadores eventuais dos noticiários da casa, levarem suas reclamações à chefia. Gritos, xingamentos, ameaças, humilhações, constrangimentos, abuso de poder, agressão verbal e até agressão física constam entre as reclamações que chegaram ao departamento de Recursos Humanos da emissora.
A coluna procurou a Record para comentar sobre as denúncias e demissão do ex-executivo, mas até o momento não recebemos nenhuma resposta. Caramante também foi contatado, mas não nos respondeu até a publicação desta reportagem. Já as inúmeras vítimas ouvidas por nossa reportagem resolveram relatar os dias de horror que alegam ter vivido enquanto eram subordinadas ao jornalista. A pedido delas, manteremos suas identidades em sigilo.
Caramante, segundo os relatos, tinha o hábito de gritar com qualquer subordinado e não se poupava de usar xingamentos para se referir a eles. “Imbecil”, “mula”, “incompetente”, “idiota” e “estúpido” foram alguns dos adjetivos que ele teria usado com uma das vítimas ouvidas pela reportagem. E isso era dito abertamente, na frente dos demais integrantes da equipe.
Outro hábito assustador que ele tinha era o de chegar nas reuniões de pauta literalmente chutando a porta da sala, causando um enorme estrondo do recinto. O ex-diretor ainda tinha o hábito de ameaçar os subordinados de demissão caso não cumprissem ordens que transbordavam o limite de suas habilitações enquanto chefe, como, por exemplo, obrigar alguém a fazer o dobro de horas de trabalho em um dia sem ter qualquer pauta a ser executada, ou até mesmo forçar que seus funcionários revelassem para ele o teor de conversas pessoais que tinham com outros colaboradores da emissora.
“Se ele me visse falando com uma repórter de outro núcleo, ele me chamava na sala dele e ficava me interrogando, de maneira incisiva, para saber o motivo da conversa. E ainda ameaçava me demitir caso descobrisse que eu estava compartilhando informações de alguma apuração de reportagens que estávamos preparando. E eu me recusava a dizer os teores de minhas conversas. Era como se não pudéssemos ter amizades na empresa, ou nem mesmo parar por 5 minutos para falar sobre amenidades enquanto tomava um café“, relatou uma das fontes.
Um dos casos apontados pelas supostas vítimas de André Caramante foi o de um repórter, que teria sido agredido fisicamente. Enquanto debatiam sobre os rumos de uma pauta ainda em processo de apuração, o ex-diretor teria encurralado seu funcionário contra a parede e pegado ele pelo pescoço. O caso foi notificado à direção de Recursos Humanos na ocasião, mas nenhuma providência foi tomada.
Outra suposta vítima dos excessos de Caramante chegou a desmaiar no refeitório da emissora por conta das cobranças por resultados. Ela estava em seu horário de almoço e o ex-diretor começou a pressioná-la por respostas, com insultos e xingamentos. A jornalista caiu dura no chão e precisou ser socorrida pela equipe médica de plantão na empresa. Mais uma vítima ouvida pela reportagem foi diagnosticada com Burnout e chegou a ficar hospitalizada por dez dias.
Nos relatos que obtivemos, os funcionários apontaram a desconfiança de que seus telefones fixos na Redação estavam “grampeados” pelo ex-chefe. “Não temos como provar, mas era muito esquisito, porque diversas vezes eu tive conversas com fontes sigilosas e chegava numa reunião e ele sabia todo o conteúdo. Aconteceu comigo e com outros repórteres“, disse uma fonte.
Após investigar com mais afinco sobre seu desligamento, a coluna obteve relatos de jornalistas que trabalharam com André Caramante em outros veículos, como no coletivo Ponte Jornalismo, e relataram situações de constrangimento e degradação.
Após dez anos acumulando reclamações, a Record optou por desligar Caramante na tarde de ontem (12). A notícia foi muito comemorada pelos profissionais da emissora, e também por quem já diz ter sofrido em suas mãos. “Amanhã faremos um churrasco para comemorar essa demissão. Ele fez muita gente adoecer. Demorou para a Record tomar alguma providência, muita gente de alta competência sofreu em suas mãos“, comentou uma das fontes.
A coluna segue com o espaço aberto para André Caramante e para a Record se manifestarem.








