Por trás da imagem pública de político simples, próximo da população e com discurso de homem de mãos limpas, existe agora um fato judicial difícil de ignorar, Ângelo Guerreiro teve mantida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul uma condenação por improbidade administrativa e pode ficar impedido de disputar as eleições de 2026. A decisão foi tomada em segunda instância e coloca o ex-prefeito de Três Lagoas diante de um dos momentos mais delicados de sua trajetória política.
O caso não envolve uma discussão meramente burocrática. A condenação determina ressarcimento de R$ 7.366.349,40 aos cofres públicos, além de multa civil e suspensão dos direitos políticos por oito anos, conforme a sentença mantida no processo. O valor milionário está relacionado a contratos para coleta, transporte e destinação de resíduos sólidos em Três Lagoas.
O processo analisou uma sequência de contratações emergenciais da Financial Construtora Industrial Ltda. entre 2017 e 2019. Segundo a decisão judicial, foram utilizadas sucessivas dispensas de licitação para manter a empresa na prestação do serviço, mesmo diante da necessidade de realização de uma contratação regular. Na sentença de primeira instância, a situação foi descrita como uma “emergência fabricada”.
A Justiça também considerou que houve prejuízo ao patrimônio público. Laudo pericial citado na decisão apontou dano de R$ 1.473.269,88 em um período de seis meses de 2017, enquanto o valor total considerado para o ressarcimento chegou a R$ 7,36 milhões.
É justamente nesse ponto que o discurso político de “bom moço” encontra uma realidade bem mais incômoda. A imagem construída ao longo de anos de vida pública não apaga uma condenação judicial. Não é uma acusação lançada em rede social, nem uma crítica de adversário: trata-se de uma condenação por improbidade administrativa que acaba de ser mantida por um órgão colegiado do Tribunal de Justiça.
E o impacto ultrapassa os tribunais. Guerreiro vinha movimentando seu nome para retornar à Assembleia Legislativa em 2026, mas a manutenção da condenação coloca sua situação eleitoral sob forte questionamento. A própria RCN67 classificou o episódio como “ficha suja” e informou que a decisão colegiada pode deixá-lo inelegível.
É importante fazer uma distinção, a expressão “ficha suja” é uma referência política e jornalística aos efeitos da Lei da Ficha Limpa; a situação concreta de elegibilidade depende da aplicação da legislação eleitoral ao caso e dos efeitos de eventuais recursos ou decisões judiciais. A defesa ainda pode recorrer às instâncias superiores e buscar a suspensão dos efeitos da condenação.
O próprio Guerreiro já contestou a condenação. Em manifestação anterior, afirmou que tem “as mãos limpas”, negou ter praticado irregularidades e disse que pretende recorrer para provar sua inocência.
Mas, enquanto o ex-prefeito sustenta sua versão, os fatos judiciais permanecem: há uma condenação por improbidade, há uma decisão colegiada mantendo essa condenação, há uma cobrança milionária determinada pela Justiça e há uma suspensão dos direitos políticos prevista na sentença.
Para quem construiu sua trajetória política associada à imagem de proximidade, simplicidade e correção, o episódio representa uma contradição que dificilmente passará despercebida no debate eleitoral. A política pode construir personagens; os processos judiciais deixam registros.
Agora, enquanto a defesa tenta reverter os efeitos da decisão nos tribunais, o nome de Ângelo Guerreiro chega ao debate de 2026 acompanhado de uma pergunta que inevitavelmente deverá ser respondida nas urnas e nos tribunais, o político apresentado como “bom moço” conseguirá superar o peso de uma condenação por improbidade e o rótulo de “ficha suja” que passou a cercar seu projeto eleitoral?
