Aos 33 anos, Jovina Karoline Lima Nunes, viu um filho cardiopata esperar 5 anos e morrer sem uma cirurgia que poderia salvar sua vida. Meses depois, passou 90 dias internada com a filha de 9 anos na Santa Casa, mas só conseguiu o procedimento no coração em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
A Santa Casa de Campo Grande decidiu fechar em definitivo o setor de cirurgia cardíaca infantil, o único a atender essa especialidade via SUS no Estado, mas muito antes de encerrar, famílias já sofriam com a espera e a necessidade de procurar em outro Estado o que não encontram em Mato Grosso do Sul.
Jovina Karoline é prova disso. Em sua família, a cardiopatia é genética e atingiu três dos quatro filhos que teve. O mais velho, foi diagnosticado em 2010 com Síndrome de Marfan, entre muitas idas e vindas em busca de cardiologista e a tão necessária cirurgia, ele morreu, em janeiro de 2025, sem nunca ter tido acesso ao procedimento.
Três meses após enterrar o filho mais velho, Julia de 9 anos, começou a passar mal. Corre de lá, corre de cá, para descobrirem que ela também precisava de uma cirurgia no coração. Foram três meses na Santa Casa aguardando parecer para o procedimento, entre abril e junho de 2025.
O hospital alegou que não estavam preparados com materiais para fazer a cirurgia. A mãe recorreu à defensoria pública, que estimou o valor do procedimento em R$ 150 mil. Por sorte, surgiu a oportunidade de levar a criança para o HC de Ribeirão Preto, referência em cardiologia pediátrica.
Julia passou por uma correção da aorta e está bem, mas precisa de acompanhamento. A cada três meses ela precisa percorrer 600 km para voltar ao hospital, o que gera muitos custos para a família, que vive com o recurso do Bolsa Família e ajuda de familiares.
“Quando ela recebeu alta, recomendaram ecocardiograma para as irmãs de 7 e 6, e a mais nova também tem cardiopatia. Esta numa fila de espera aguardando cardiologista aqui em Campo Grande, mas consegui consulta pra ela lá em São Paulo”, conta a mãe que agora vai ter que arcar também com a passagem da outra filha.

Karol consegue passagem do poder público para ela e Julia, mas precisa arcar com deslocamentos na cidade, gastos com alimentação, hospedagem, o que custa muito caro pra família. “A gente sobrevive na luta, na fé”, disse.
Os gastos com deslocamentos não são os únicos, a alimentação da filha precisa de cuidados, fora os exames e medicamentos exigidos. Enquanto isso, a diretoria da Santa Casa é acusada de desviar R$ 4,9 milhões em recursos do hospital em 2025, ano em que Karol enterrou um filho.
A então presidente do hospital, a advogada Alir Terra Lima, comprou um sobrado na Vila Esplanada, em Campo Grande, com o pagamento de R$ 400 mil em espécie, conforme denúncia do Ministério Público Estadual.
No mesmo período, o sócio, o advogado Paulo da Cruz Duarte, comprou dois apartamentos em área nobre da Capital. O primeiro tinha duas vagas na garagem. O segundo imóvel, localizado no edifício de luxo no Bairro Santa Fé, tinha três vagas na garagem.