SUDOESTE MS

Com maratona intensa em incêndios, como está a saúde mental de bombeiros em MS?

Uma chamada entra na linha 193, o telefone do Corpo de Bombeiros. De um lado da linha, sul-mato-grossenses pedem socorro, seja por emergência de saúde, seja pelo fogo decorrente de queimadas ou acidentais. Do outro lado, o socorro acolhe o clamor de quem liga e designa uma viatura para a ocorrência.

Como essa, são centenas de ligações diárias, na perspectiva de um final feliz. O serviço, contudo, enfrenta níveis absurdos nesta época do ano. Seja por esse ou por outros canais, a época de estiagem favorece o fogo, principal ramo de atuação dos bombeiros militares. Mas, nada tem se comparado com 2024.

A rotina de salvamentos já antecedia a agenda climática de Mato Grosso do Sul. Primeiramente, cobrindo o salvamento de pessoas e animais no Rio Grande do Sul em meio às enchentes. Depois, no combate às chamas, que já devastaram cerca de 300 mil hectares do Pantanal.

O Dia do Bombeiro foi celebrado nesta semana, 2 de julho, e a reportagem do Midiamax lembra que, mesmo preparado, o bombeiro é uma pessoa sujeita a traumas, estresse pós-traumático e esgotamento.

Questão de saúde

Um estudo desenvolvido na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), realizado pela pesquisadora Thamyres Ribeiro Pereira em 2021, entrevistou 260 bombeiros de Campo Grande para analisar o estresse ocupacional e suspeição para transtornos mentais nesse grupo.

Logo, a pesquisa detectou uma alta prevalência de transtornos mentais menores, em 75,7% dos entrevistados. Além disso, os dados apontam um índice de estresse ocupacional em cerca de 60% do grupo.

Vale lembrar que o estresse ocupacional não tem correlação com fatores sociodemográficos, confirmando ligação ao trabalho de bombeiro militar com a alta prevalência de estresse. A pesquisa indica, ainda, que os principais fatores que geram esse adoecimento estão na natureza da atividade, que sempre enfrenta crises.

Foto: Henrique Arakaki

Rotina dos bombeiros no Pantanal e no Rio Grande do Sul

Segundo o assistente social e tenente Franco, o CBBMS já tem um protocolo para enfrentar situações como as queimadas do Pantanal, ainda mais por ser um trabalho realizado ano após ano no Estado. Em meio à crise deste ano, as equipes de combate às chamas fazem rodízio quinzenal.

“Nós também temos uma base apoio, com estrutura para descanso, geladeira, fogão, camas, Internet via satélite, para eles poderem manter contato com os familiares e amigos”, destacou.

As equipes se revezam desde o início de junho. Essa é a maior queimada no Pantanal de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul registrada desde 2012. Em apenas 30 dias, o fogo consumiu mais de 411 mil hectares do bioma, quando, na média histórica, o Pantanal costuma queimar pouco mais de 8 mil hectares.

No pantanal sul-mato-grossense as chamas já consumiram cerca de 300 mil hectares em pouco mais de um mês. Além disso, há locais onde as chamas já combatidas voltaram a queimar.

Foto: Henrique Arakaki

“Já no Rio Grande do Sul não houve tanto esse tempo de descanso, até porque a base de apoio ficava mais distante”, lembrou o tenente Franco.

Após as enchentes, Mato Grosso do Sul enviou três equipes para dar apoio aos resgaste do RS. Em vídeos, é possível ver o tamanho do desafio enfrentando pelos bombeiros, que salvaram pessoas e animais, em meio ao frio e umidade.

Ações pela saúde mental de militares em MS

Ainda segundo o tenente Franco, do CBMMS, há um trabalho árduo para quebrar o estigma relacionado à saúde mental. “O público masculino, em contexto geral, é o que mais tem preconceito e dificuldade de encarar esse problema. Mas, nos últimos anos, com divulgação e ações nesse sentido, eles têm falado mais e procurado mais ajuda”, disse.

Em Mato Grosso do Sul, os homens constituem cerca de 90% da equipe do CBMMS, tornando-se ainda mais importante esse atendimento especializado.

Foto: Henrique Arakaki

Em 2018, o Estado instituiu o programa de valorização à vida e prevenção ao suicídio no âmbito do CBMMS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul). O programa foi criado após pesquisas acadêmicas apresentadas no 9º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no Rio de Janeiro, jogarem luz sobre um tema até então ignorado nas estatísticas oficiais de violência: o suicídio de policiais militares, civis e federais brasileiros.

Os estudos indicavam que, encarregados de salvar e proteger cidadãos, policiais pensam na própria morte como saída para uma rotina marcada pelo alto estresse, risco, afastamento da família e pela convivência com o crime, tráfico, pedofilia e perdas constantes dos companheiros de trabalho.

Riscos iminentes, prevenção é caminho

Uma das pesquisas, realizada pelo Laboratório de Análise da Violência da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), entrevistou 224 policiais militares do Rio de Janeiro. Deles, 22, ou seja, 10% declararam ter tentado suicídio, e pelo menos 50 disseram ter pensado em suicídio em algum momento da vida.

Segundo o CBMMS, o programa contempla atividades de conhecimentos científicos a atividades realizadas pela equipe da Diretoria de Saúde e Capelania do CBMMS.

“O programa busca conscientizar os militares, comprometidos com esses valores da dignidade da pessoa humana, com ações sociais, integrando a teoria à prática, ligando dessa forma os elos do conhecimento ao auxílio ao próximo, pois uma dor não compartilhada dói mais”, informou a CBMMS à época da criação do programa.

Foto: Henrique Arakaki

Origem do Dia do Bombeiro Brasileiro

Oficialmente, o governo instituiu o Dia do Bombeiro Brasileiro através do decreto-lei nº 35.309, de 2 de abril de 1954.

A data é uma homenagem a todos que arriscam as suas vidas para proteger as pessoas, as cidades e as florestas do risco de incêndios, desastres naturais, desabamentos, etc.

Além de apagar incêndios, os bombeiros também ajudam a socorrer animais em perigo e auxiliar pessoas que enfrentam situações de grande stress, como tentativa de suicídio, afogamento, desaparecimentos e traumas provocados por acidentes.

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