Depois de ter contribuído para colocar a Santa Casa de Campo Grande no buraco, participando da intervenção que durante 8 anos ampliou a dívida da instituição de R$ 37 milhões para mais de R$ 167 milhões, o ex-prefeito e agora senador Nelsinho Trad (PSD) quer “salvar” o hospital.
Em postagem em seu perfil no Instagram, o político diz ter telefonado para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a quem teria solicitado que “una os esforços do Ministério da Saúde ao Governo do Estado e à prefeitura de Campo Grande para a gente poder tirar a Santa Casa desse momento crítico”.
No vídeo, o parlamentar argumenta que “a Santa Casa não pode colapsar. Isso vai custar vidas, vai ser muito mais caro colapsar a Santa Casa, tirar ela da situação e fazê-la voltar à normalidade do que qualquer intervenção que se fizer agora”.
E finaliza: “O que está ruim poderá ficar muito pior. Vamos todos unidos ajudar a Santa Casa. União pela Santa Casa. É isso que eu peço. Vamos juntos”.
Contradição
A determinação de socorrer a Santa Casa demonstrada no vídeo deixa clara a contradição do senador com relação à saúde financeira do hospital, já que ele contribuiu – e muito – para que a instituição chegasse à grave situação em que hoje se encontra.
No final de 2004, quando a ABCG era presidida pelo médico Arthur D’Ávila Filho e o prefeito era o colega de jaleco André Puccinelii (MDB), a crise na Saúde em Campo Grande se assemelhava à que vem se desenrolando no município a partir da posse da prefeita Adriane Lopes (PP), em abril de 2022.
Calvário diário
Unidades de saúde lotadas, permanência de pacientes durante horas nas filas de espera para receber atendimento e outros problemas gravíssimos se repetiam diariamente no final do primeiro ano da gestão Nelson Trad Filho.
Essas situações eram os reflexos naturais mais visíveis da falta de investimentos do poder público na Atenção Primária à Saúde (APS), porta de entrada do SUS, desestabilizando toda a rede hospitalar na qual o município ainda hoje se socorre, inclusive a Santa Casa.
Decreto de intervenção
No auge da crise, no final de 2004, a diretoria da ABCG decidiu fechar o portão do pronto-socorro, já que não havia mais condições de o hospital receber mais pacientes, criando-se então as condições que faltavam para que o poder público se apropriasse da gestão da Santa Casa.
No dia 13 de janeiro de 2005, o então prefeito Nelson Trad Filho publicou o Decreto nº 9.131, oficializando a intervenção e a requisição dos bens do hospital, inclusive o CNPJ e as contas bancárias.
Para decretar a intervenção, o prefeito contou com o apoio do governo do Estado, na gestão Zeca do PT, do Ministério da Saúde o do ministério público estadual e federal, que se comprometeram a acompanhar a gestão do hospital, o que jamais fizeram.
Nesse meio tempo, uma Ação Civil Pública foi ajuizada por esses dois entes, na qual requereram ordem judicial de intervenção, que acabou sendo concedida. Por sua vez, a ABCG ajuizou ação para retomar a administração do hospital.
Saneamento das contas
A Santa Casa passou a ser administrada por juntas interventoras, com a missão de “profissionalizar a gestão, sanear as contas e promover a recuperação financeira do hospital”, à época com dívidas que somavam cerca de R$ 47 milhões.
Oito anos depois, em maio de 2013, já na gestão Alcides Bernal, por ordem judicial, a Santa Casa foi devolvida à ABCG, com dívidas que somavam R$ 167 milhões.
Retórica falsa
“A tese do saneamento das contas do hospital como justificativa da intervenção não passou de falácia, pois jamais se consolidou”, lembra Wilson Teslenco, presidente da ABCG em maio de 2013, quando esta recebeu o hospital de volta.
Para ele, o pedido de mobilização do senador Nelsinho Trad para salvar a Santa Casa do colapso não passa de discurso. “Ele teve durante oito anos a chance de fazer algo positivo pelo hospital, mas não fez”, argumenta Teslenco.
Recuperação é possível
No período em que permaneceu na presidência da ABCG, Teslenco provou ser possível resgatar a saúde financeira da Santa Casa.
Ao entregar a direção do hospital para seu sucessor na presidência, o advogado Esacheu Cipriano do Nascimento, a dívida havia sido reduzida de R$ 167 milhões para R$ 42 milhões.
Diante dessas gestões temerárias, o rombo aumentou, chegando hoje a mais de R$ 600 milhões, com déficit mensal de cerca de R$ 14 milhões, segundo informa a direção do hospital.
Nova crise
Em função disso, hoje a Santa Casa enfrenta nova crise, que assim como em 2005 a coloca na iminência de entrar em colapso.
O hospital ainda resiste, apesar do déficit mensal de mais de R$ 13 milhões, fruto não apenas da má-gestão da ABCG, mas sobretudo por conta do descompromisso do poder público com a Saúde.
Tanto a prefeitura quanto o governo do Estado vêm se manifestando nos últimos dias argumentando que os pagamentos do hospital estão em dia, inclusive divulgando montantes milionários a que o hospital já recebeu.
Mas não é essa a questão central da crise, mas sim o subfinanciamento da Saúde pública em Campo Grande, de responsabilidade dos três entes, inclusive o federal.
Argumentar que não devem nenhum real à Santa Casa e virar as costas para os problemas do hospital não irá, de maneira alguma, solucionar a grave crise hoje instalada não apenas na instituição, mas principalmente na saúde pública em Campo Grande.
Salários atrasados
No início desta semana, enfermeiros e pessoal administrativo entraram em greve para forçar a ABCG a pagar o 13º salário, que acabou sendo parcelado.
Já os médicos, tanto os regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) quanto os remunerados como pessoa jurídica (PJ), seguem há meses sem receber os salários, assim como a gratificação natalina.
@VOXMS