Rodrigo Perez integra conselho que aprovou concessão de R$ 6,9 bi vencida por fundo da corretora; contrato é alvo de recurso no STJ e de processo no TCE
Oito dias depois de ser flagrado desembarcando de um jato da família dona da JBS no aeroporto de Campo Grande, o secretário de Governo e Gestão Estratégica de Mato Grosso do Sul, Rodrigo Perez, voltou a aparecer em registro que não deveria ter vindo a público.
Na noite de terça-feira (15), o perfil de um restaurante na capital sul-mato-grossense publicou nos stories do Instagram fotos de um jantar com executivos da XP Investimentos. A postagem marcava o perfil da corretora e foi apagada cerca de 30 minutos após ter sido postada, mas o print “é eterno”.
Nas imagens, Perez aparece sentado à mesa ouvindo Rafael Furlanetti, sócio e diretor institucional da XP Inc. Em outra foto, com Fátima Martins, sócia da corretora na área de banco de atacado, o braço que estrutura dívida e operações com empresas e governos.
O encontro não constava de nenhuma agenda pública. Desde o início do período eleitoral, o governo desativou a agenda do governador no site oficial e redirecionou a agência de notícias do Estado para uma página provisória. O governador Eduardo Riedel (PP) é candidato à reeleição.
A XP não é uma instituição financeira qualquer para o governo de Mato Grosso do Sul. Um fundo gerido pelo grupo, o XP Infra V, lidera o consórcio que venceu a concessão da Rota da Celulose, 870 km de rodovias estaduais e federais no leste do estado, com contrato de R$ 6,9 bilhões em investimentos ao longo de 30 anos, o maior negócio de infraestrutura já licitado pelo Estado. A concessionária Rodovia da Integração SPE assumiu as estradas em fevereiro deste ano.
Perez teve papel direto nesse processo. O Escritório de Parcerias Estratégicas (EPE), que estruturou a concessão, é vinculado à secretaria que ele comanda. O secretário também integra o Conselho Gestor de Parcerias que, em setembro de 2024, autorizou a publicação do edital.
Dias antes, ele havia acompanhado Riedel na apresentação do projeto a investidores na B3, em São Paulo. “Conseguimos reunir os principais atores do mercado, incluindo fundos de investimento e agentes financeiros”, disse na ocasião, segundo nota da própria secretaria. O XP Infra V foi constituído sete semanas depois, em 25 de outubro de 2024.
Em março deste ano, Perez participou, ao lado do governador e do secretário de Infraestrutura, Guilherme Alcântara, da reunião em que a concessionária apresentou o plano dos primeiros cem dias de operação.
Disputa no STJ
O contrato com o consórcio da XP nasceu de uma disputa que ainda não terminou. No leilão de maio de 2025, o Consórcio Caminhos da Celulose, da XP, ficou em segundo lugar. O vencedor, o consórcio K&G, liderado pela K Infra Concessões, foi inabilitado pela comissão de licitação após recurso do próprio concorrente, com base na caducidade de outra concessão da empresa, na BR-393, no Rio de Janeiro, decretada pelo governo federal em junho de 2025, depois da entrega das propostas.
A K Infra recorreu ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Perdeu a liminar em dezembro e, em 8 de junho deste ano, teve o mandado de segurança negado por unanimidade pela 2ª Seção Cível. Em 29 de julho, levou o caso ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) por meio de recurso ordinário, alegando que o tribunal estadual não enfrentou o argumento de que as infrações que motivaram a caducidade ocorreram entre 2010 e 2014, antes de a empresa assumir a concessão fluminense, em 2019.
O Estado e a concessionária defendem a validade do certame. As contrarrazões da Procuradoria-Geral do Estado foram protocoladas em 8 de setembro, sete dias antes do jantar no Residenza. A concessionária, por sua vez, pediu que a K Infra seja condenada por litigância de má-fé. O recurso aguarda envio ao STJ.
No Tribunal de Contas do Estado, a concessão corre em outro processo. Em decisão publicada em 27 de março, o conselheiro Sérgio de Paula constatou que a Secretaria de Infraestrutura não enviou a licitação ao tribunal, nem antes nem depois da assinatura do contrato, como exige a resolução 88/2018.
O secretário Guilherme Alcântara enviou os documentos “por meio de link” e sustentou que não havia obrigação legal, tese refutada pela área técnica e pelo Ministério Público de Contas. Ele foi multado em 1.800 Uferms, cerca de R$ 95 mil, e intimado a fazer a remessa em cinco dias úteis.
O governo afirmou à época que a Rota da Celulose é concessão comum, e não parceria público-privada, e que o processo foi conduzido “em estrita observância aos princípios da legalidade, da transparência e da publicidade”.
Duas empresas do consórcio vencedor enfrentam problemas próprios. A Construtora Caiapó foi declarada inidônea pela CGU (Controladoria-Geral da União) em março, com multa de R$ 37,3 milhões, por esquema de corrupção em obras federais no Paraná; a empresa afirma que a decisão não é definitiva. A Ética Construtora é investigada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) por suposto cartel em licitações do Dnit e da Codevasf.
Sem dinheiro do Estado, mas com decisões bilionárias
Levantamento feito pela reportagem na base de credores do Portal da Transparência estadual não localizou nenhum pagamento ou contrato do governo com empresas do grupo XP ou com a concessionária. O modelo da Rota da Celulose é custeado pelo usuário, por pedágio; o Estado não desembolsa recursos.
O que está em jogo é outra coisa: ao longo de três décadas, o poder concedente decidirá sobre reajustes de tarifa, reequilíbrios econômico-financeiros, aditivos e fiscalização de obras. E há um segundo negócio no horizonte. Em junho, o governo apresentou a investidores a nova concessão rodoviária Água Clara–Inocência–Paranaíba, de cerca de 220 km, na mesma região da celulose, com leilão previsto ainda para 2026. A XP é candidata natural.
Para especialistas em integridade pública, o problema não é a existência do encontro, mas a ausência de registro. A Lei de Licitações (14.133/2021) impõe à administração os princípios da impessoalidade, da moralidade e da segregação de funções. Reuniões entre agentes do poder concedente e concessionárias com contrato sob questionamento judicial e administrativo, sem agenda pública, em período eleitoral, são exatamente o tipo de situação que códigos de conduta de alta administração costumam exigir que seja documentada, e a retirada da publicação transforma um jantar comum em um jantar que alguém preferiu não ver registrado.
Riedel, por sua vez, foi palestrante em novembro de 2025 do encontro anual da XP Asset, em São Paulo, ao lado do fundador da corretora, Guilherme Benchimol. A XP Asset é a casa da XP Vista, gestora do fundo que controla a concessionária.
Passivo Master
O grupo XP chega a Mato Grosso do Sul carregando uma disputa de outra escala. A corretora foi a maior distribuidora de CDBs do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025: cerca de R$ 26 bilhões, ou 64% do total coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos, segundo dados divulgados pelo site Pipeline. O BTG Pactual vendeu R$ 6,7 bilhões. As duas instituições respondem a ação civil pública do Instituto Abradecont na 6ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, por “publicidade enganosa e conflito de interesses”, com pedido de indenização coletiva de R$ 100 milhões.
Em junho, foi revelado que a gestora da XP vendeu ao Master, entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025, participações no Will Bank e na rede de restaurantes Alife Nino, R$ 385 milhões pagos em CDBs do próprio banco, liquidados entre março e maio de 2025. A XP afirmou que a decisão de venda foi tomada em 2024 e concluída “muito antes dos eventos recentes”, com aprovação dos reguladores.
Não há qualquer indício que ligue o Master à concessão sul-mato-grossense. Mas o banco de Daniel Vorcaro tem um rastro próprio no estado. Uma empresa do conglomerado, a PKL One Participações, dona da marca de cartão consignado Credcesta, mantém desde março de 2023 convênio com o governo para descontar parcelas na folha dos servidores estaduais. O convênio foi renovado em 11 de março de 2025, por dois anos, quando o Banco Central já impunha restrições ao Master.
Pelos registros do Portal da Transparência, os repasses de consignações do Estado à PKL One somaram R$ 14,1 milhões em 2024, R$ 26,1 milhões em 2025 e R$ 22,6 milhões até setembro de 2026. As ações de servidores contra a PKL e o Master no Tribunal de Justiça passam de mil. Um projeto de lei do deputado Pedro Kemp (PT) para suspender os descontos tramita na Assembleia desde junho; os descontos só pararam em agosto, e por iniciativa da própria empresa, que rompeu com a operadora do sistema de consignações.
