A Shein continua no celular de milhões de consumidores, vende bilhões de dólares por ano e transformou o fast fashion em um fenômeno global. Mesmo assim, o mercado decidiu que ela vale muito menos.
A companhia chega ao IPO de Hong Kong avaliada em até US$ 27 bilhões. Em 2022, investidores privados chegaram a atribuir à empresa um valor próximo de US$ 100 bilhões.
Ou seja, mais de US$ 70 bilhões desapareceram do valuation. Mas a pergunta interessante não é onde foi parar esse dinheiro. É o que mudou na percepção dos investidores sobre a Shein.
Durante o processo de expansão, a companhia parecia ter criado algo maior do que uma varejista.
Usando dados para identificar tendências, produzindo pequenos lotes e reagindo rapidamente ao comportamento do consumidor, a Shein construiu uma máquina capaz de colocar milhares de produtos no mercado a preços muito baixos.
Era quase uma empresa de tecnologia que vendia roupas.
Agora, o mercado começa a fazer uma conta mais parecida com a aplicada a qualquer grande varejista: quanto ela cresce, quanto ganha e quanto custa continuar crescendo? E essa conta ficou mais difícil.
A Shein faturou cerca de US$ 41,8 bilhões em 2025, mas o crescimento perdeu velocidade.
Ao mesmo tempo, mudanças tributárias e regulatórias em mercados importantes aumentaram a pressão sobre um modelo construído em grande parte sobre pequenas encomendas internacionais.
Aí vender barato ficou mais caro e o Brasil ajuda a explicar o problema.
Em 2023, a Shein anunciou que pretendia transformar o Brasil em uma importante base de produção, trabalhando com 2 mil fabricantes locais e ajudando a gerar cerca de 100 mil empregos até 2026.
A experiência mostrou como é difícil reproduzir fora da China a engrenagem que tornou a empresa tão competitiva.
Segundo a Reuters, a rede brasileira chegou a 336 fábricas antes de a companhia tornar a estratégia mais seletiva. Enquanto isso, outra frente avançou: o marketplace, que já reunia cerca de 45 mil vendedores locais no início deste ano.
Esse movimento talvez revele algo sobre a próxima Shein: em vez de simplesmente importar roupas baratas da Ásia ou tentar reproduzir sua cadeia chinesa em cada país, a empresa pode depender cada vez mais de sua capacidade de ser a vitrine onde consumidores e vendedores se encontram.
Isso também muda a discussão sobre a chamada “taxa das blusinhas” no Brasil. Quanto mais caro fica importar pequenas encomendas, maior o incentivo para plataformas internacionais ampliarem produtos e vendedores locais.
Por isso, a queda de valuation da Shein conta uma história maior do que a de uma empresa que perdeu valor.
O mercado está tentando descobrir quanto vale uma companhia que revolucionou o consumo barato justamente quando governos, tarifas e custos começam a tornar esse consumo mais caro.
E o Brasil pode ser um dos lugares onde descobriremos primeiro se a Shein consegue se reinventar.
Porque talvez a grande questão já não seja como a Shein consegue vender uma blusinha tão barata, mas se o modelo que tornou essa blusinha tão barata ainda vale US$ 100 bilhões.
