As investigações que culminaram na Operação Ifrit, deflagrada pela PF (Polícia Federal), em conjunto com a Receita Federal, apontaram que o policial civil Douglas Tobias vazava informações sigilosas em troca de valores em dinheiro, produtos militares e celulares da organização criminosa.
Inclusive, o Jornal Midiamax noticiou que havia uma relação de proximidade pessoal entre Hoffman e os demais investigados de pertencer à organização criminosa. Despedidas com abraços, momentos de descontração com direito a karaokê e até visitas noturnas dos traficantes na sede da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), antes comandada por Hoffamn.
De acordo com o relatório no qual a reportagem do Jornal Midiamax obteve acesso, Tobias é apontado como policial cooptado pelo grupo desde meados de 2021, sendo que ele e Andrey tinham suposto contato próximo e frequente com Adel Hassan Haidar e Adule Vasques Haidar.
A PF encontrou um extenso diálogo entre Adule e Douglas, que começa com um combinado para ambos se encontrarem presencialmente para conversarem. O policial encaminhou dois modelos de iPhones para Adule e sugeriu que o encontro fosse na casa do pai dele, o Adel Hassan. Na sequência, houve um possível novo encontro de Douglas, Adule e Adel no dia 23 de junho de 2024, desta vez na casa de Tobias, no residencial Alphaville, na Capital.
Em outros diálogos entre Douglas e Adule, o policial fala da aquisição de uma mochila da marca 5.11, especializada em artigos de uso tático e militar. Logo, Adule afirma ter enviado uma mensagem para “outro celular” de Douglas, o que, segundo a PF, sugere o uso de canal de comunicação diverso daquele analisado.
Nas anotações de Adule, foram verificadas referência a iPhones, duas pistolas Glock, duas caixas de munição e a mochila da marca 5.11. Sobre os aparelhos celulares, foi observado Adule encaminhando dados bancários a Douglas, sugerindo que seria o pagamento desses itens. Contudo, não foi identificada a menção ao pagamento dos demais objetos.
As investigações revelaram também novos elementos de proximidade de Adule com os policiais civis. Em 9 de junho de 2021, Adel encaminhou a Adule os contatos “Ascari Andrey” e “Tobias”, associados aos policiais Andrey e Douglas.
Dias depois, no dia 16, Adule afirmou ao pai que precisaria repassar R$ 190 mil ou R$ 200 mil ao “Askarie” — expressão usada para designar policial colaborar do esquema criminoso, sem indicar o destinatário.
Compartilhamento de informações
No dia 25 de julho de 2021, 14 dias depois de duas mortes envolvendo Maroan (primo de Adule), Adule enviou foto de dentro de seu veículo, ao lado de uma viatura da Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros). Na imagem, aparecem dois policiais que a investigação identificou como Andrey e Douglas.
Em uma das ocasiões, Adel repassou a foto de uma pessoa a quem chama de “piroca”, provável desafeto. Adule queria saber o nome ou vulgo, então Adel mandou perguntar para Andrey ou Tobias, deduzindo-se que Douglas também compartilhava informações sensíveis ao grupo, assim como Andrey.
As investigações encontraram também o delegado mencionando dois depósitos sequenciais que somam R$ 205.000,00, provenientes de uma empresa concessionária de veículos para empresa de fabricação e comércio de móveis, de propriedade da esposa de Douglas Tobias.
Ainda conforme o relatório, Douglas pesquisava nos sistemas policiais restritos, monitorava alvos de interesse do grupo criminoso e vazava informações sigilosas, em tese em troca de valores em dinheiro, produtos militares e celulares. Análise bancária também identificou três transações de R$ 25 mil cada, em recursos destinados para a empresa de fabricação e comércio de móveis (da esposa de Douglas), evidenciando o suposto elo de ligação entre Hoffman e Tobias.
Além disso, foi verificada a emissão de uma nota fiscal de serviços com valor de R$ 99.900 da empresa de fabricação e comércio de móveis. Contudo, os pagamentos encontrados do delegado para a pessoa jurídica somaram R$ 75 mil, não totalizando o valor descrito na nota. Isso “pode apontar para repasse de recursos em espécie ou ainda o pagamento por meio de contas de pessoas interpostas”.
Adel Hassan e Hoffman
Há registros também de Hoffman, com Adel Hassan Haidar, ou seja, o pai de Adule. Dois encontrados foram registrados pela Polícia Federal, sendo em novembro de 2025 e março deste ano. Em um deles, Adel aparece ao lado de Hoffman empunhando uma arma longa, em um teste aparentemente de pontaria. Já no segundo encontro, Adel e Hoffman se despedem com um abraço.
Em um vídeo gravado em maio do ano passado, em Ponta Porã (MS), o delegado aparece na companhia de Adel, em momento de aparente confraternização, enquanto ambos se divertem ao som de um aparelho de ‘karaokê’. Para a Polícia Federal, isso evidenciou a relação de proximidade pessoal entre eles.
Conforme o relatório, além dessas relações mais íntimas, Hoffman também integraria reuniões de alinhamento com a cúpula da organização para tratar de ameaças, conflitos internos e represálias contra desafetos, recebendo, em contrapartida, valores pecuniários repassados por meio de contas de terceiros a ele vinculados.
Operação Ifrit
Em Campo Grande, as equipes levaram um Mustang de um condomínio de luxo, na região do Parque dos Novos Estados. O veículo seria de Douglas Tobias, policial civil alvo da Operação Infiltrados, que investiga um esquema que desviava drogas apreendidas pela Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
Os policiais federais também foram até a residência de Hoffman D’Ávila para cumprir mandados. Ou seja, essa é a segunda vez em que o delegado e o policial civil são alvos de operação em menos de dois meses.
A organização criminosa investigada pela PF também teve apreendidos uma caminhonete L200 Triton, armas, munições, dinheiro, dólar e até um relógio Rolex dourado, guardado em uma caixa.
A Operação Ifrit cumpriu 76 mandados judiciais, sendo 25 deles de prisão preventiva e um de prisão temporária, e foi realizada em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. Três policiais civis foram afastados das funções.
Saiba quem são os 29 alvos da operação:
- Adel Hassan Haidar
- Adule Vasques Haidar
- Andrey Elesbão Silva
- Bassam Hassan Haidar Ahmed
- Brendo Benega Pereira
- Bruno Banega
- Bruno Leonardo Bergamasco
- Daniel Ecleverson da Silva Barbosa
- Daniel Jonatas Ferreira
- Douglas Tobias
- Eduardo Greco
- Fahd Haidar
- Hector Salinas Esquivel
- Hoffman D’ávila Candido e Sousa
- Ireneo Ramom Acosta
- João Fernando Andrade de Carvalho
- Jorge Adalid Granier Ruiz
- José Miguel Vela Caprioli Junior
- Mamede Alhaj Haidar
- Maroan Fernandes Haidar Ahmed
- Nasser Haidar
- Pedro Henrique Flores Camargo
- Rafael Rodas Neto
- Renan Braiana Garcia Presotto
- Salazar José Batista
- Valdeson Pereira dos Santos
- Valter Ulisses Martins Silva
- Victor Hugo Santos Queiroz
- Vitor da Silva











