A suspensão de dois médicos por 30 dias por erro que deixou Roberto Avelar Júnior, o Juninho, em estado neurovegetativo reacendeu o debate sobre punições a profissionais e levou um pouco de esperança a quem busca por justiça.
No caso do Juninho, foram punidos a médica ginecologista Karin Kiefer Martins e o anestesista Antônio Rodrigues de Pontes, por unanimidade, em julgamento ético do CRM-MS (Conselho Regional de Medicina em Mato Grosso do Sul), na semana passada.
Aliás, a ginecologista pode enfrentar outro processo. A paciente Marcela Barbosa Gomes, de 39 anos, afirma ter sido vítima de erro da médica, além de ter sido ignorada por ela no pós-cirúrgico.
Marcela foi submetida a uma histerectomia parcial (retirada de útero e colo do útero) no dia 7 de outubro. No entanto, teve a bexiga perfurada durante o procedimento. Ela alega negligência da doutora após a cirurgia, dizendo ter sido ignorada pela médica. “Fiquei 15 dias com urina vazando dentro de mim, falei com ela e ela não tomou nenhuma providência“, diz Marcela.
A mulher relata que, após constatar infecção, a doutora Karin ‘sumiu’. As afirmações são comprovadas por Marcela através de prints enviados à reportagem. “Ela simplesmente sumiu depois que falei que tinha perfurado minha bexiga”, disparou.

Mesmo após informar sentir muita dor e não estar conseguindo comer, a médica ainda passa algumas orientações a paciente. No dia 20 de outubro, após exames comprovarem a infecção na bexiga, dra. Karin diz que é ‘estranho’ e que a perfuração na bexiga ‘é um risco’. Depois, não responde mais.
No entanto, após o Jornal Midiamax entrar em contato e solicitar um posicionamento da ginecologista sobre o caso, Karin volta a procurar Marcela, no dia 21, perguntando como ela está e como foi a cirurgia – seis dias depois de Marcela ter feito uma cirurgia para costurar a bexiga.
Agora, Marcela ainda está com sonda enquanto se recupera da última cirurgia, além de estar se preparando para uma cistectomia, que é a retirada de parte da bexiga.
Apesar de estar abalada com tudo o que aconteceu e se recuperando, Marcela já procura advogados para entrar com ação judicial contra a ginecologista. “Para que essa mulher não faça mais isso com ninguém. Quase morri. Não me deu assistência médica nenhuma. Foi erro médico dela, me fechou com bexiga perfurada e não me deu assistência médica. Ela não pode fazer isso, não, sou um ser humano”, lamenta.
Sobre esse episódio, a dra. Karin disse que não pode tratar de informações de pacientes sem autorização, mas que todos os pacientes são acompanhados no seu processo de tratamento e recuperação. “De forma geral, todos os nossos pacientes são acompanhados no seu processo de tratamento e recuperação. Se há alguma necessidade, o paciente pode nos informar qualquer intercorrência, que será prontamente atendido. Sigo à disposição para qualquer esclarecimento que não demande informações pessoais dos pacientes”.
‘Ela era tudo na minha vida’: filha quer justiça pela mãe

✅ Clique aqui para seguir o canal do Jornal Midiamax no WhatsApp
Diferente do caso de Marcela, Luciana Gomes Pinheiro, 51, não resistiu a uma infecção generalizada e falência dos rins após uma cirurgia por videolaparoscopia, para retirada de tecido da região pélvica para a biópsia.
Apesar de ser considerado minimamente invasivo, o procedimento exige anestesia total e internação hospitalar. “E na hora da cirurgia, dá para reparar esse erro. Porém, o médico nem viu. Ele liberou minha mãe com infecção”, relata a filha da vítima, Patrícia Mayara Gomes Pinheiro.
Patrícia diz ainda que houve uma sucessão de erros no HCAA (Hospital de Câncer Alfredo Abraão). “No dia da alta, minha mãe passou muito mal. Eu voltei. Deram só medicação e liberaram. Eu falei que não queria levar minha mãe, porque ela passou muito mal. Não me deram assistência nenhuma”, lembra a filha da vítima.
A certidão de óbito confirma as razões da morte: “Choque séptico (infecção que baixa a pressão e causa falência de órgãos), abdome agudo perfurativo e insuficiência renal aguda”.
No fim, a biópsia, que motivou a cirurgia, deu negativo para malignidade. “Sou filha única, não tenho pai nem irmãos. Minha mãe era tudo na minha vida“, lamentou Patrícia.
Três meses depois, o caso ainda recente causa dor a ela. “Minha filha e única neta da minha mãe grita e chora. Está revoltada. Como dói”.

Agora, o próximo passo da família é procurar punição aos responsáveis. “Quero justiça, porque uma coisa dessa não pode estar acontecendo. Mataram uma família. Minha avó está inconsolável. Ela e meu avô têm câncer e quem cuidava deles era minha mãe”, lamenta Patrícia.
Questionada se recebeu algum tipo de retorno do hospital sobre o ocorrido, Patrícia diz que não.
Em nota enviada ao Jornal Midiamax, o HCAA informou que está apurando o caso. O hospital “determinou o encaminhamento das informações pertinentes à Comissão de Ética e Revisão Técnica Médica do HCAA, que está analisando o ocorrido para as devidas providências“.
Ainda, o hospital lamentou a perda e disse que “todas as informações necessárias estão à disposição dos órgãos competentes e da família da paciente, assegurando transparência, seriedade e apoio neste momento delicado“.
Por fim, disse que “o Hospital de Câncer Alfredo Abrão reafirma seu compromisso com a ética, a transparência, a privacidade e a qualidade da assistência prestada, mantendo o respeito e a responsabilidade em todas as suas ações em prol dos pacientes, familiares e da comunidade“.
O CRM foi procurado pela reportagem para comentar sobre casos de erros médicos e como proceder, bem como dar orientações sobre denúncias, mas não respondeu até esta publicação. O espaço segue aberto.
CRM-MS suspende médicos que deixaram Juninho em estado neurovegetativo

✅ Clique aqui para seguir o canal do Jornal Midiamax no WhatsApp
O CRM/MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) suspendeu a médica Karin Kiefer Martins e o anestesista Antônio Rodrigues de Pontes por 30 dias, por erro que deixou Roberto de Avelar Júnior, o Juninho, em estado neurovegetativo. O rapaz é filho do vereador de Campo Grande Beto Avelar (PP).
A dupla foi condenada por unanimidade durante o julgamento ético realizado na noite de quinta-feira (23). Juninho passou por cirurgia ortopédica em fevereiro de 2022 e sofreu uma parada cardiorrespiratória. Hoje ele vive em estado neurovegetativo.
Pontes Neto foi condenado por dano a paciente, delegação de atribuições exclusivas de médicos, recusa de informar paciente ou representar legal sobre riscos de procedimento e imperícia nos meios para prevenção e tratamento em favor do paciente. As condutas estão previstas nos artigos 1,2, 18 e 22 do Código de Ética Médica.
Já a ex-diretora do Hospital Adventista do Pênfigo foi condenada por desobediência de acórdãos e resoluções dos conselhos federal e regional de Medicina, acobertamento de erro ou conduta antiética de médico e omissão de denúncia de atos contrários à ética médica. Todas essas condutas estão previstas nos artigos 18, 50 e 57 do Código de Ética Médica.









